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Reportagem publicada na Revista VEJA: Edição 2121 de 15 de junho de 2009 (leia online)
(Bel Moherdaui)
Viajar é carregar sacolas
De outlet em outlet, turistas brasileiros percorrem Europa e Estados
Unidos conhecendo lojas e gastando. Aliás, gastando, não – economizando
Viajar é conhecer lugares inusitados, ter contato com outras
culturas, perambular por museus, encantar-se em igrejas... Ah, não,
vamos falar a verdade: para muitos turistas é, sobretudo, fazer umas
comprinhas. Tanto que muitos viajantes têm suas prioridades bem claras:
primeiro lojas e depois passeios turísticos. Em lugar de Louvre,
Vaticano e Metropolitan, entram Gucci, Diesel e Calvin Klein. Melhor
ainda se as grifes sedutoras oferecerem grandes descontos e estiverem
agrupadas num outlet, como é chamado o paraíso dos consumistas dignos
desse nome. Para quem se encaixa nesse contingente, os Estados Unidos
são o sistema solar das compras, Nova York seu principal planeta e
Woodbury Common o satélite mais atraente. Situado a uma hora de
Manhattan (outlets exigem dedicação – ficam fora dos grandes centros), é
uma espécie de shopping a céu aberto com 220 lojas, desde as mais
convencionais até marcas estelares como Balenciaga, Chanel, Valentino e
Giorgio Armani. Os descontos vão de 25% a 65%. É parada obrigatória do
casal Donato e Maristela Galvez, de São Paulo, sempre que visitam a
cidade. "Vamos muito a esse outlet e a um em Orlando. Também estivemos
agora na Itália e minha mulher foi a um perto de Roma", diz o
empresário, que no ano passado foiàs compras internacionais três vezes. "Compro roupas e sapatos. Minha
mulher gosta de bolsas e meus filhos, em geral, compram tênis, roupas
esportivas e brinquedos", enumera Galvez. Experiente e resistente, hoje
em dia ele vai aos outlets direto do aeroporto e pernoita em um hotel
nas proximidades para poder dedicar dois dias inteiros às compras.
O apelo das boas compras a preços de liquidação evidentemente é
universal, mas tem especial ressonância no mercado brasileiro. Tanto que
causa estranheza a demora em aparecerem por aqui centros de compras com
desconto em escala realmente grande, lacuna que começa a ser
preenchida. O primeiro grande conjunto de lojas de marca com desconto do
Brasil, o Outlet Premium, acaba de ser inaugurado a 70 quilômetros de
São Paulo, junto a uma grande rodovia, a Bandeirantes, como é comum nos
Estados Unidos. "O que vimos durante a estruturação do projeto é que
marcas mais sofisticadas têm apelo muito grande em mercados emergentes,
como Ásia e América Latina. Além disso, o outlet propicia um grande
nível de consumo a preços vantajosos, e o brasileiro é um povo que
consome bem", diz Alexandre Dias, diretor da empresa responsável pelo
projeto, a General Shopping Brasil, dona de uma dezena de shoppings
populares nas regiões Sul e Sudeste.
O ímpeto aquisitivo dos consumidores nacionais é renomado além das
fronteiras. Segundo dados levantados pelo gigante Woodbury Common, onde é
comum ouvir português em todos os corredores, as brasileiras estão
entre as maiores clientes de marcas como Roberto Cavalli, Diesel e La
Perla. "Elas vão fazendo compras e pondo no carro. No fim da tarde,
quando acabam, levam um susto com a quantidade de sacolas. No hotel, têm
vergonha de entrar com tudo aquilo", entrega o mineiro Nergismar
Ferreira, que trabalha como motorista nos Estados Unidos e leva
brasileiros ao Woodbury Common ao menos duas vezes por semana. "Diria
que 80% da minha clientela vai lá. Certa vez levei três senhoras e
precisei tombar os bancos traseiros do carro, que é bem grande, para
caberem as sacolas. Só na Chanel, gastaram 7.000 dólares", diz o
motorista, que, aliás, dificilmente resiste a fazer uma ou outra
comprinha enquanto espera. "O esquema lembra a Disney: você chega, pega
um mapa, escolhe os brinquedos e sai comprando", compara a
relações-públicas Débora Fagundes Corrêa, 27 anos, que já carimbou o
cartão de crédito duas vezes por lá e tem entre as aquisições memoráveis
um vestido Marc Jacobs por 90 dólares e um jeans Diesel por 70.
Atendente em uma agência de viagem em São Paulo, o que facilita as
incursões internacionais, Fabiano Calandrin, 30 anos, dedicou boa parte
de uma viagem a Orlando, em abril, às compras, compras e mais compras.
Foi a dois outlets, o Premium e o Prime, com três amigos. "Num deles, eu
e meus amigos perdemos a noção do tempo e ficamos comprando até as 11
da noite. Acabamos sozinhos, cheios de sacolas e sem táxi para voltar
para o hotel", lembra. Experiência traumatizante? Nada disso. Poucos
dias depois, lá estava Calandrin no segundo outlet. "Fiquei das 3 da
tarde às 8 da noite só comprando. Esqueci de comer e até de beber água."
Na rede europeia Chic Outlet Shopping, que tem centros de compras –
ou villages, como preferem – próximos a nove grandes cidades, de Paris a
Londres, Barcelona e Milão, os brasileiros não só figuram no ranking
das dez nacionalidades que mais compram, acompanhados de chineses,
russos e japoneses, como são campeões de gastos em transações
individuais: 319 euros em média, três a mais que os americanos. "Nos
últimos três anos vimos um grande crescimento de brasileiros em nossos
centros, mesmo sem ter feito nenhum tipo de campanha voltada a esse
mercado. Sentimos que comprar em outlet é um conceito que foi descoberto
pelo brasileiro, passou de boca em boca e virou uma tendência", avalia
Desirée Bollier, diretora da Value Retail, empresa que gerencia a Chic
Outlet. Segundo Desirée, "os brasileiros não vêm em grandes grupos, como
os japoneses e os chineses. Vêm em casais ou duplas de amigos. Adoram
marcas e compram produtos de alta qualidade". Em férias na Espanha, a
carioca Flavia Ricobella, dona de uma empresa de eventos, confirmou
plenamente o perfil ao passar um dia explorando o Chic Outlet de
Barcelona. "Gastei um pouco mais do que gostaria. Mas acho que vale
muito mais a pena do que comprar nas lojas das marcas no Brasil ou aqui
mesmo na Espanha", diz ela. Nas sacolas de Flavia, havia sapatos,
blusas, lingerie, produtos de beleza e, item obrigatório na lista dos
loucos por outlet, uma boa mala para pôr tudo dentro.
Como era de esperar, o primeiro outlet multimarcas da América
Latina, o Premium São Paulo, abriu há três semanas e já anda lotado: no
último domingo, dia 5, passaram por suas cinquenta lojas, de um total de
oitenta planejadas, cerca de 10 000 pessoas. Numa das mais concorridas,
da Nike, a fila para entrar levava quarenta minutos. Segundo um dos
sócios, Cesar Federmann, o público que frequenta esse tipo de comércio é
diferente do que vai aos shoppings justamente porque compra muito mais.
"No shopping, você dá umas voltinhas e, se eventualmente acha algo
interessante, compra. O outlet não funciona assim. Como fica afastado da
cidade e tem preços até 80% mais baixos, quem vai lá vai para comprar",
diz. Moradores de João Pessoa, na Paraíba, o advogado William
Albuquerque, a mulher e os dois filhos souberam do outlet por amigos de
São Paulo e viajaram expressamente para conhecê-lo. E conheceram: num
único dia, passaram sete horas batendo perna pelas lojas. "Achamos tênis
e camisetas de times pela metade do preço", comemora Albuquerque.
Para entrar nas prateleiras do outlet, as mercadorias precisam ter
pelo menos 30% de desconto em relação aos preços das lojas. Elas fazem
parte, geralmente, de uma ou duas coleções anteriores. Portanto, da data
em que chegam à loja até o dia em que desembarcam no outlet, vão-se
seis a doze meses (entre esses dois lugares, elas costumam fazer paradas
em liquidações e bazares). As peças permanecem à venda até alguém
comprá-las, com descontos cada vez maiores. "Gente da minha família, do
Paraná ao Tocantins, reservou um quarto na minha casa para vir conhecer
essas lojas. E quem já veio comprou muito", diz a esteticista Luciane
Proença de Carvalho, de São Paulo, cercada de parentes de Londrina
carregados de sacolas. Os preços ainda estão muito longe de ser
comparados às barganhas encontradas nos Estados Unidos, mas exibem a
palavra mágica: desconto. No dia da visita de Luciane e parentes, um par
de óculos escuros Marc Jacobs de 1 100 reais era vendido por 519; um
tênis Nike Shox de 599 reais custava 349; um terno Ricardo Almeida de 2
900 saía por 1 419; e cobiçadas calças Diesel, que no shopping custam de
614 a 1 215 reais, lá estavam por 339 a 499 reais.
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